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23/06/2008 GMT 1

Cigarro: vilão mortal!!!(Importante ler tudo)

donetzka @ 00:27
FUMAR PROIIBIDO PLACA COM CIGARRO ANIMADO


 

Já não é de hoje que se discute sobre os males causados pelo cigarro. E se antes ele era visto por muitos como sinônimo de elegância e independência, sendo estimulado pelo cinema, comerciais e, até mesmo, pela própria sociedade, hoje o que não falta são campanhas e alertas sobre as diversas conseqüências negativas que traz ao organismo. Confira abaixo a entrevista com o Dr. Fernando Vannucci, cirurgião torácico. Atualmente, trabalha no setor de Cirurgia Torácica do Instituto Europeu de Oncologia, em Milão, na Itália, setor este que já realizou em 2006 cerca de 800 cirurgias de câncer, principalmente câncer de pulmão.
Pergunta 1 - Como já é sabido, o cigarro possui uma grande quantidade de componentes totalmente maléficos ao organismo. Mas nem todo mundo presta atenção no que realmente eles são capazes; apenas sabem que fazem mal. Você poderia descrever brevemente a atuação de cada uma dessas substâncias no corpo humano?
Uma resposta detalhada para essa pergunta é extremamente difícil, porque o cigarro é composto por inúmeras substâncias nocivas à saúde, assim como durante a sua combustão outras tantas são produzidas e absorvidas pelo organismo. Dentre as principais, destacaria:
a) Nicotina; que é a droga diretamente responsável pelo surgimento da dependência. Esta substância atua no cérebro do fumante estimulando a liberação de substâncias relacionadas ao relaxamento, prazer e bem-estar, como endorfinas e serotonina. A nicotina também promove a contração dos vasos sanguíneos, causando aumento da pressão arterial e da freqüência cardíaca, podendo levar à doenças cardio-vasculares. Também é por conta da nicotnia que o fumante está mais propenso à gastrite e úlceras estomacais, tendo em vista que esta substância estimula a liberação de ácido clorídrico no estômago. Juntamente com outras substâncias, a nicotina agride os pulmões, causando a destruição do tecido pulmonar e culminando com o surgimento do enfisema pulmonar, que é irreversível.
b) Monóxido de carbono; esta substância gasosa é produzida por meio da combustão do fumo e uma vez absorvida pelo organismo, se liga à hemoglobina, que é a molécula que transporta o oxigênio para todo o organismo. A ligação o monóxido de carbono à hemoglobina é irreversível e dificulta a oferta de oxigênio a todos os tecidos do corpo, podendo levar a vários distúrbios circulatórios.
c) Alcatrão; que na verdade não é um a substância, mas sim um composto formado por dezenas de partículas altamente cancerígenas, entre as quais estão a acetona, naftalina, arsênio, níquel, nitrosaminas, hidrocarbonetos e muitos outros. O alcatrão tem potencial cancerígeno cumulativo e dose-dependente (quanto maior a dose e quanto maior for o tempo de exposição ao tabaco, maior a chance do surgimento de um câncer). De modo geral, estas substâncias levam ao câncer por indução de mutações genéticas e/ou por estimulação da reprodução celular.
É fundamental salientar que as substâncias do cigarro não exercem seus malefícios de maneira isolada e independente. Todas elas atuam em conjunto, potencializando ainda mais os riscos à saúde da pessoa que fuma.
Pergunta 2 - Em um estudo recente, saído na revista especializada BMC Genomics, pesquisadores canadenses mostraram que fumar deixa marcas permanentes em alguns genes, mesmo se o hábito for suspenso, gerando doenças posteriormente. O que você tem a nos dizer sobre esse assunto? O dano genético causado pelo cigarro é irreparável?
Este estudo conclui que não todos, mas alguns danos genéticos causados pelo fumo sejam irreversíveis, de modo que mesmo após a cessação do tabagismo, o risco de desenvolvimento de câncer persistiria indefinidamente ao longo do tempo. O fato é que sempre que existe um agente agressor (no caso, o fumo) que cause danos à estrutura genética de uma célula, a própria célula aciona mecanismos de defesa e reparo para "consertar" o DNA lesado. A lesão pode se tornar permanente quando a agressão à célula atingir também o funcionamento destes mecanismos de reparo. Ainda de acordo com o estudo, o fumo seria responsável não só por induzir danos genéticos diretos, mas também por comprometer alguns destes mecanismos de defesa celular utilizados para reparar estes danos. São conclusões recentes, porém importantes e oriundas de pesquisadores respeitados. De fato, a cessação do tabagismo não livra de imediato o paciente do risco aumentado de câncer, mas ao longo do tempo este risco volta a cair. A partir deste ponto, existe certa controvérsia. Alguns estudos apontam que após cerca de vinte anos sem fumar o risco de câncer entre os ex-fumantes volta a ser semelhante ao dos indivíduos não-fumantes. Outros estudos, no entanto, sugerem que por mais que o tempo passe, o risco pode até diminuir, mas um ex-fumante nunca mais voltará a exibir um perfil de risco similar ao de um indivíduo não fumante. Em tese, estes indícios que suportam esta última corrente respaldam a conclusão do estudo canadense.
Pergunta 3 - São inúmeras as conseqüências causadas pelo cigarro. Poderia nos dizer quais os principais casos de doenças relacionadas?
Esta é uma pergunta importante, porém complexa. Tentando resumir da forma mais simples possível, pode-se dizer que o fumo está fortemente associado aos seguintes males, entre tantos outros: câncer de pulmão (o tabagismo está presente em cerca de 90% dos casos de tumores pulmonares malignos), câncer de boca, câncer de laringe, câncer de bexiga, câncer de cólon (intestino grosso), câncer de pâncreas, câncer de rim, enfisema pulmonar, bronquite crônica, ateriosclerose, infarto do coração, aneurismas vasculares, "derrame cerebral", trombose vascular (podendo levar a amputação de membros), gastrite, úlcera do estômago, problemas de hálito e dentição, aborto/parto prematuro e doenças e/ou malformações no feto (para mulheres gestantes) e impotência sexual no homem. A lista completa é certamente bem mais extensa do que esta e as pesquisas continuam a comprovar a relação do tabagismo com outras doenças.
Pergunta 4 - Sabemos dos riscos que o fumo pode trazer para o bebê no momento da gravidez. As crianças também sofrem bastante. Quais são os principais problemas ocasionados nesse quadro?
Durante este período, além de todos os riscos já citados para a fumante em si independente do estado de gravidez, o fumo pode levar à complicações especificamente gestacionais. A saber: a gestante fumante corre maior risco de sangramentos, abortos espontâneos, parto prematuro e complicações durante o parto. Além disso, para o feto, são maiores os riscos morte ainda dentro do útero materno (morte fetal) e morte neo-natal (recém-nascido), assim como também é maior o risco de a criança apresentar baixo peso ao nascer. Alguns estudos recentes têm sugerido uma relação entre déficit de aprendizado escolar em crianças filhas de mães que expostas ao fumo durante a gestação. É importante esclarecer que não só a gestante fumante pode apresentar estes problemas, mas também a gestante não tabagista que seja exposta ao fumo passivo e, ainda, a mãe que fuma durante o período de amamentação.
Pergunta 5 - Há uma diferença de riscos de doenças entre homens e mulheres fumantes?
Até o momento, nenhum estudo demonstra diferença de risco estritamente ligada ao sexo. A ciência hoje admite que um homem e uma mulher expostos a mesma carga tabágica apresentem os mesmos riscos de desenvolvimento de problemas de saúde ligados ao tabagismo. No entanto, o que ocorre com maior freqüência é que uma quantidade relativamente maior de homens fuma, e em maior quantidade. Por isso, as estatísticas sobre fumantes vítimas do tabaco ainda mostram um número maior de homens do que mulheres. Entretanto, nas últimas décadas, este perfil tem mudado de modo que a tendência atual e num futuro próximo é de equilíbrio. Isto ocorre porque, com a maior inserção da mulher na sociedade de um modo geral, os padrões de hábitos e comportamentos femininos têm sofrido profundas modificações e, proporcionalmente, o número de mulheres fumantes aumentou.
Pergunta 6 - Uma dúvida que sempre perpassa a cabeça das pessoas é sobre os riscos que o fumante passivo tem ao inalar a fumaça perigosa. Este tem sido um problema de saúde pública em todos os países do mundo, estando entre uma das principais causas de morte em alguns países. Nesse sentido, quais são as principais conseqüências que o fumante passivo pode ter, desde problemas respiratórios até casos mais sérios?
O tabagismo passivo definitivamente não é um mito. É realidade. O indivíduo não fumante que é exposto à fumaça do cigarro, seja aquela exalada pelo fumante ou a que emana do próprio cigarro, corre maior risco de apresentar todos os problemas de saúde causados pelo fumo se comparado a um indivíduo não exposto ao tabaco. É claro que os riscos de adoecer não chegam a ser iguais ao do fumante ativo. Todavia, se comparado com uma pessoa não exposta, os riscos do "fumante passivo" para surgimento dos males do cigarro são indiscutivelmente mais altos, sendo cerca de 30% maior para o câncer de pulmão, por exemplo, segundo estudos científicos. Em maior ou menor grau, o conceito de que o risco aumenta nos "fumantes passivos" quando comparado ao indivíduo não-fumante se aplica para todas as doenças relacionadas ao cigarro.
Pergunta 7 - Uma outra preocupação que vem gerando bastante dor-de-cabeça é a presença do cigarro entre os jovens. A equipe da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo já até mostrou, em pesquisa recente, que a experiência com o fumo entre os jovens tem começado por volta dos 13 anos. Na sua visão como profissional, que sugestões daria para a diminuição desse consumo? Qual a melhor maneira, na sua opinião, que os pais, as autoridades e a própria sociedade como um todo poderia intervir nesse sentido?
A questão envolvendo o tabagismo e os jovens tem alguns pontos fundamentais e é a partir deles que devem ser implementadas as estratégias de combate ao fumo nesta faixa etária. Em primeiro lugar, o tabaco é uma droga lícita e de fácil acesso. Mesmo com a proibição da venda a menores de idade, infelizmente não é difícil que um jovem no Brasil tenha acesso ao cigarro. Em segundo lugar, porém não menos importante, sabemos que o jovem é, em geral, mais vulnerável ao cigarro, tanto pela freqüente busca da auto-afirmação como pela procura de um perfil que confira maior aceitação perante seus pares. Esta postura é pessoal variável, dependendo profundamente da formação familiar e dos exemplos que o adolescente encontra em seu ambiente doméstico, de forma que quanto menos sólida for esta formação, mais desprotegido ele estará. Além disso, o jovem tradicionalmente é visto como um alvo preferencial pelas indústrias do fumo, por ser um potencial fiel consumidor durante muitos anos de sua vida (90% dos fumantes iniciam o hábito antes dos 19 anos) e por ser mais influenciável pelos fortes apelos publicitários destas próprias indústrias, que durante muito tempo tentaram ligar o hábito do cigarro à idéia de sucesso, poder, independência, atitude e glamour.
Por conta destes fatos, creio que o combate ao estímulo do tabagismo pela juventude exige uma conscientização que passa por todas as esferas sociais. Esta conscientização começa dentro de casa, com o exemplo dos pais e parentes e continua nas escolas, com ações didáticas sobre os malefícios do cigarro, entre outras atividades pedagógicas. Também tomam parte neste processo os agentes de saúde em geral, incluindo-se aí todos os médicos, independente de sua área de atuação. Por fim, o Estado deve agir ativamente fiscalizando a comercialização dentro das exigências e restrições legais, coibindo o contrabando (que é fonte de cigarros ainda mais facilmente acessíveis e baratos), estimulando as políticas públicas de restrição da publicidade das indústrias de tabaco e investindo ainda mais nas campanhas de esclarecimento sobre o mal causado pelo fumo.
Pergunta 8 - Há um período mínimo de consumo do cigarro para gerar o quadro de dependência? E quanto à quantidade de cigarros diários?
Definir a partir de qual carga tabágica se inicia o vício é praticamente impossível do ponto de vista prático, porque a predisposição à dependência depende de muitos fatores fisiológicos, psicológicos e sociais, que são amplamente variáveis de pessoa para pessoa e, às vezes, até mesmo de um período para o outro numa mesma pessoa. Não se pode afirmar qual o tempo de uso do tabaco ou quantidade de cigarros determinantes para gerar um quadro de dependência. Mas certamente é possível dizer que não existem níveis seguros para o consumo de cigarros e que a nicotina é uma das drogas mais fortemente viciantes conhecidas.
Pergunta 9 - Que dicas você sugere para os fumantes largarem de vez esse vício? E quanto aos tratamentos, quais você sugeriria?
A dica principal para o fumante abandonar o vício passa em primeiro lugar e necessariamente pela convicção da vontade do próprio fumante em querer parar de fumar. Se ele não quiser de fato, provavelmente nenhum tratamento surtirá efeito. Esta conscientização rumo ao abandono do tabagismo é um processo muito difícil, que exige elevado graus de motivação e envolve mudança de comportamentos e hábitos de vida. É importante o paciente saber que o tabagismo é uma doença reconhecida pela própria Oragnização Mundial de Saúde. A primeira abordagem, tanto no sentido do auxílio a esta conscientização quanto no planejamento de estratégia terapêutica em si, deve ser feita por um pneumologista habilitado no tratamento do tabagismo. Enquanto especialista, ele saberá orientar o paciente frente às varias alternativas possíveis, entre as quais se destacam: terapia cognitivo-comportamental, medicamentos que atuam diminuindo progressivamente a necessidade de nicotina pelo organismo (Bupropiona e Vareniclina são exemplos de medicações utilizadas) e reposição de nicotina em doses decrescentes (goma de mascar e adesivo cutâneo são as formas de reposição habitualmente empregadas no Brasil).
Pergunta 10 - Você acha as campanhas anti-cigarro - como a das fotos nas embalagens, por exemplo - são eficientes? Para você, que método seria mais eficaz para amenizar o consumo?


Sem dúvidas, as campanhas de desestímulo ao tabagismo têm valor. Isto se reflete nas estatísticas que, nos últimos anos, têm mostrado uma diminuição gradual no número absoluto de fumantes no Brasil e uma maior consciência da população em geral quanto aos males causados pelo cigarro. É importante que estas campanhas não só continuem, mas sejam intensificadas. Várias análises estatísticas relacionam um maior índice de tabagismo fumo à baixa renda e menor escolaridade. Desta forma, depreende-se que as campanhas devem ser claras e objetivas. A partir deste conceito, algumas frentes de combate ao tabagismo são fundamentadas na divulgação de imagens, não raro fortes e impactantes, como as que se encontram nas próprias embalagens e pontos de venda de cigarro. Entretanto, para que o consumo diminua ainda mais, só as campanhas não bastam. É preciso haver uma legislação criteriosa; e neste ponto, o Brasil tem posição de destaque no cenário mundial. A fiscalização rigorosa da produção e da comercialização, o combate ao contrabando e restrição à publicidade são peças fundamentais nesta árdua disputa em favor da saúde e da vida. 

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